SÉRGIO RODRIGUES
Você nasceu para escrever. E agora?

Este e outros conselhos extraídos de O LIVRO DO ESCRITOR

 

Acabou que, tanto quebrou a cara por aí, você se viu forçado a reconhecer: não tem nada que saiba fazer melhor nesta vida do que escrever. Construir esculturas de palavras, pequenos objetos, biscoitos ou ensaios para uma futura pirâmide, não importa. De todo modo, escrever. Ficar horas à frente de uma tela em branco e sujar aquela planura, desenhar alguma coisa. Você talvez esteja, quem sabe, até contente com a descoberta disso que gosta de chamar para si mesmo de dom, o que de fato é. Há o que festejar, mas esta mensagem é para quem passou da fase de festa e começa a ficar, hmm, meio preocupado.

Você sabe que uma decisão terá que ser tomada logo, uma decisão simples, sim ou não, A ou B.

A  Sim, vou encarar isso como a razão de ser da minha vida e me dedicar a escrever tão bem quanto possa, enquanto tiver forças físicas e mentais para tanto.

B  Não, obrigado. Fico no amadorismo, o que importa é me divertir, me expressar. Não reconheço valor na corrida insana de vocês, isso que chamam maiusculamente de Literatura. O significado de escrever para mim está acima (ou abaixo, se preferirem, não estou nem aí) disso tudo.

Veja-se que as duas respostas são igualmente corretas, o que significa dizer que são igualmente erradas. Mas têm consequências dramaticamente distintas na vida do cidadão, então convém falar um pouco de cada uma.

Se escolher A, a entrega total, você terá outra bi- furcação à frente: virar um doente ou um maluco. O doente sua toda a cerveja que bebeu na vida para construir um barco que não faça água, ou pelo menos um bote, antes de se lançar na cauda- losa empreitada. O maluco é maluco o suficiente para, tendo entregado a alma, comprometido tudo, encarar a corredeira confiando só no próprio crawl.

A opção B é a que mais frequentemente conduz a uma vida feliz ou, faltando a felicidade, pelo me- nos serena. Você escreve e pronto: a ênfase está na ponta do escrever, não na do ler. Você gosta que leiam, claro, de repente tem até um blog, mas não está disposto a se ralar nas ostras da autoflagelação em nome disso.

Em outras palavras: podendo, você, que nasceu para escrever, deve ficar com B, a resposta mais leve e luminosa, a menos doentia. Mas neste ponto é preciso ter cuidado.

Se você, no fundo, é um caso agudo de A, um A nato de fratura exposta, e por algum motivo escolheu B, não perca tempo: procure acompanhamento médico o mais depressa que puder.

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