Mãe Maria

 

Diga, dona Maria, vai querer levar o quê? – Perguntou a mulher miúda e de cabelos ralos, ao notar uma senhorinha se aproximando de sua barraca na feira.
Não conhecia a compradora, mas, como uma prova de sua simpatia, resolveu apelidá-la mesmo assim. O hábito de chamar desconhecidos por nomes comuns, como “João” ou “Maria”, é um sinal de bom humor no interior nordestino.
A cliente, no entanto, fechou a cara e logo retrucou:
— Nossa Senhora, não me fale desse nome horrível!
— Pois por que seria horrível? Se eu lhe ofendi a senhora desculpe, viu.
— É que eu o detesto mesmo, acho muito sem graça. – Completou a senhora de maneira impaciente, com os braços postos à cintura. Sem entender direito o rumo da conversa, a vendedora rebateu:
— Olhe, para começar, Maria é a mãe de Jesus e, em segundo lugar, é o meu nome, não sei porque seria feio.
Constrangida pela resposta, a senhorinha arregalou os olhos e abaixou a cabeça. Em seguida, se retirou sem dizer mais nada, deixando Maria, a vendedora, novamente sozinha em sua barraca.

Quando criança, Maria Josivan de Oliveira se acostumou a ser chamada de Josivani, apelido pelo qual grande parte de seus familiares e amigos a conhecem até hoje. Foi só aos 9 anos de idade, quando olhou a lista de presença da professora na escola, que descobriu: ela havia sido batizada com a variante masculina Josivan.
Ainda menina, foi para casa correndo e avisou a mãe, que logo pegou seu registro de nascimento para checar. Era isso. Haviam errado no cartório e a garota de cabelos cacheados nas pontas tinha em seu segundo nome a grafia dedicada aos homens.
Entre os vizinhos, ela é mais conhecida por Tita, mas admite que o peito se enche mesmo de alegria quando alguém chega ao seu portão e chama pela Dona Maria. Esse é o nome pelo qual gostaria de ser lembrada.
É o nome da mãe de Jesus, ela repete. O nome daquela que abraça as dores com a voz mansa e a paz nos olhos.

Assim como tantas outras mulheres que trabalham na agricultura, a relação de Dona Maria com a terra começou logo cedo. Junto de seus irmãos mais novos, Giovani, Gilmara e Janaina, passou a acompanhar o pai em seu trabalho no campo aos dez anos de idade. Por volta das cinco da manhã, quando os primeiros raios de sol surgiam no céu, o barulho das enxadas sendo carregadas era o suficiente para acordar as crianças.
Os quatro se levantavam e seguiam em direção à cozinha, onde tomavam um gole de café preto e comiam alguma coisinha para enganar o estômago. Dali, a família ia em direção ao plantio, aproveitando as manhãs frescas para trabalhar. Ao meio-dia, as crianças trocavam de roupa, pegavam os livros e caminhavam para a escola primária, onde ficariam por toda a tarde.
Nesse meio tempo, a mãe cuidava da casa e o pai continuava suas atividades no roçado, esperando que os filhos retornassem para o jantar, quando deixariam tudo organizado para recomeçar as atividades no dia seguinte.
Descendente de uma família bastante rígida, Maria admite que deve aos pais sua organização detalhada das roupas no varal e da louça dentro dos armários. Mas, também lamenta o que o cuidado em excesso lhe trouxe a longo prazo.
— Me lembro que ele não deixava nem a gente brincar na rua, com receio que acabássemos por aprontar alguma coisa. Eu chorei de monte, mas não teve jeito… não consegui fazer o quinto ano. – Lembra ela, com um pouco de tristeza na voz.

 

Anne Caroline Gonçalves , jornalista, nasceu em São Paulo há 22 anos. Sua mãe saiu do Pernambuco aos 12 anos de idade, mas carrega até hoje a origem nordestina, servindo de inspiração para este livro.

 

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Seis mulheres do agreste pernambucano: suas histórias, dores e alegrias.


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30 de novembro de 2017