Uma mulher em triplo exílio: do país, da língua, do passado. Um mistério aos poucos vislumbrado, em amores e rancores.

 

 

Há tempo procuro um modo de contar a história da portuguesa porque acredito que certos encontros são armados pelo destino como encomenda para gente. Eu me vi em um desses na porta da escola da minha filha, o último lugar onde esperava fazer amigos. Não consigo resumir minha primeira impressão, mas não cogitei trocar palavra com ninguém até o dia em que ela me notou grávida, na saída das crianças. A filha dela também estudava ali. Então ela se aproximou, pensando que eu também fosse de Portugal, e com uma intimidade quase grosseira e nostálgica proferiu suas recomendações para uma gestação saudável. Falou da experiência de ser mãe de três. Quando me dei conta estava envolvida em um diálogo sobre a importância da quarentena com alguém que sequer sabia como se chamava. Os encontros e as conversas se repetiram, mas demorei a memorizar seu nome.

Qualquer um ficaria curioso sobre a portuguesa. Em meio a outras mães e pais, ela era diferente. A magreza excessiva e a coluna curva lhe davam silhueta de mulher velha, cansada e triste. De perto, porém, era cansada e triste, mas não velha. Seu rosto era jovem, e bonito. Estava claro que aquela mulher enfrentava um momento difícil. Logo nas primeiras conversas rápidas na saída da escola, contou que não falava inglês. Disse que na sua idade era mesmo difícil soltar o português e abraçar um idioma tão diferente. Depois descobri que só tinha quarenta e um anos, mas falava como se tivesse sessenta. Estava há três anos na Inglaterra sem entender o que falavam nas calçadas. Dialogou apenas com os patriotas. Fora daquele círculo, vestiu um sorriso educado e se limitou a dizer em péssima pronúncia não ser capaz de falar naquela língua. Não entendeu as capas de revista, o noticiário na TV, ou os cumprimentos do vendedor de frutas. No trabalho, limpou as escadarias da universidade cabisbaixa, desviando olhares e conversas curtas. Sua maior frustração era não ajudar as filhas nas tarefas escolares.

Comunicar-se com a escola era um de seus problemas. Por educação, coloquei-me à disposição para ajudá-la sempre que precisasse falar com a diretoria ou com a professora. Um dia a secretária me pediu que lhe traduzisse um convite para a feira de verão, explicando como deveria vestir a menina. Outra vez a fiz entender que o passeio para a praia era gratuito, e que o prazo para confirmar presença acabava em breve. Por pouco a filha da portuguesa não ficou de fora.

Mas eu não estava na igreja, quando ela chorou, sorriu e cantarolou sem entender uma palavra do que diziam no altar. Ou quando precisou ser atendida com urgência no hospital. Ou quando a vizinha insistiu em puxar conversa falando mais alto que o habitual, como se disso dependesse a compreensão.

Nos primeiros meses de expatriada, a companhia da família lhe bastou. O pai morava ali há quinze anos e nunca pronunciou nada que não fosse português. Tinha fama de sisudo, e era mesmo muito prudente em seus atos. Evitava conversas, mesmo as curtas, para não passar mal-entendidos. À vontade decerto o velho só estava entre seu povo. Falo dos portugueses legítimos, porque brasileiros e africanos não lhe pareciam confiáveis. No começo, a portuguesa achou que era normal viver em um país sem falar a língua, mas não tardou a perceber as diferenças entre ela e seu pai. Além disso, podia notar as marcas desses quinze anos de analfabetismo à saúde dele. O pai da portuguesa só sorria depois de alguns goles de bagaceira, que mandava trazer de Portugal por parentes e amigos de modo que a aguardente nunca lhe faltasse. Já não entendia a graça da vida sem a embriaguez do álcool. Bebia todos os dias. Os mais próximos evitavam comentar.

Era legítimo que não quisesse o mesmo destino. Quando a conheci, tinha as passagens de volta compradas com embarque dali a um ano. Estava em contagem regressiva, talvez por isso se sentindo ainda mais aprisionada, necessitada de se fazer entender. Que vida absurda!, me ocorreu pensar naquela época. Ela não entendia o que diziam ao seu redor! Isso deve ser mesmo muito solitário.

Nos meses que lhe restavam ali, desenvolvemos uma espécie de amizade. Eu não me senti à vontade ao ponto de abrir-me, mas fui um bom par de ouvidos. Nos encontrávamos quase todos os dias, fazíamos em parte o mesmo caminho de volta da escola, era inverno e um chá quente de manhã antes de recomeçar a rotina muitas vezes era indispensável. Parávamos no café mais movimentado, escolhíamos umas das pequenas mesas voltadas à enorme janela de vidro, de onde víamos passar a gente local em sua vidinha.

A portuguesa nunca comia. Um chá, sem açúcar e com pouco leite era seu pedido de sempre, repetido a mim que o traduzia ao caixa. Logo me explicou: sofria de uma doença misteriosa que lhe tirava o apetite e a saúde. De tanto passar mal com o que comia, aos poucos deixou de comer. Pesava quarenta e quatro quilos quando a conheci, e contava que seu peso corriqueiro era sessenta. Como quase todos os portugueses que conheço, ela evitou falar a palavra câncer, mas não escondeu a aflição de, após toda a demora até chegar a um diagnóstico, descobrir o pior. Passou por muitos médicos, de várias especialidades, e nenhum chegou à conclusão. O mal lhe atingia de repente, começava com uma dor de cabeça à noitinha, e logo ela não tinha mais forças para sair da cama. Qualquer coisa que comesse lhe caía mal, por isso passou dias em dieta líquida, perdendo cada vez mais peso. Desconfio que também a curvatura dorsal acentuada era efeito dessa doença. Ou carregava alguma coisa muito pesada em seu pensamento.

Eu mesma saí da nossa primeira conversa com um peso no corpo. Vi tanto desequilíbrio naquela pobre mulher que senti como um impulso a obrigação de dar-lhe alguma esperança. A portuguesa não só sofria de uma doença inventada por ela própria, mas repetia os erros continuadamente. Estava tão perdida quanto um novato. Parecia ter acabado de chegar ao mundo, sem noção alguma sobre o que encontrar.

Mas quando a conheci já havia se passado três anos. Como é possível atravessar três anos com essa angústia, uma coisa crescendo no peito, dor, dor mesmo! Ela não tentou aprender inglês, nem antecipou sua volta para casa. Insistiu ao seu modo, esperando que um milagre a salvasse.

“Eu preciso me refazer, minha cabeça está em pedaços.” Ela disse isso, com essas mesmíssimas palavras, em nosso último encontro.

 

 

Marta Barbosa Stephens é jornalista e crítica literária, nasceu em Recife e mora na Inglaterra. Tem contos publicados em diversas antologias, entre elas Perdidas, histórias para crianças que não têm vez.

 

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  1. Narrativa segura, que demonstra que a autora tem domínio do assunto e sabe conduzir a história.

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20 de março de 2018